Ervas Medicinais

A seguir, trechos do Livro: Pomeranos no Paraíso.

... Agora falavam mais alto e havia uma correria de pessoas entrando e saindo da mata. Desci apressado e logo fiquei sabendo que a enorme árvore caiu em cima do velho Lüdtke vindo de Labuhn, município (Kreis) de Regenwalde.

- Que tristeza vê-lo ferido e saber que nem médico havia na região. Um sentimento de inutilidade e impotência tomou conta de meu coração. Chorei um pouco escondido atrá de um enorme jequitibá. Refeito fui me colocar a disposição aos outros vizinhos que juntos trabalhavam solidários. Já tinham improvisado uma maca feita de bambus amarrados com cipós. Lüdtke ainda encontrava-se desacordado. Fiquei sabendo que estava sendo levado á casa de Frau Knaack. Mulher experiente de grande conhecimento sobre ervas medicinais na região.

A caminhada por trilhas estreitas entre maricás foi tensa e silenciosa. Em pouco tempo atingimos o pátio da propriedade. Gansos nos cercavam não nos deixando aproximar da casa.

Os Knaack na Pomerânia eram exímios defumadores de peito de ganso e as mulheres confeccionam acolchoados e as penas destes animaizinhos brancos, exportavam para Dinamarca. Afastados os gansos, caminhamos em direção á casa. Por um momento alguns lembraram semelhança na propriedade dos Knaack em Schwellin, município (Kreis) de Belgard.

Finalmente Frau Knaack chegou da lavoura espantando as dezenas de gansos e vendo a gravidade do acidentado pediu para trazer Lüdtke para o avarandado. Lá o colocaram no chão do assoalho de madeira que continha dezenas de pétalas de cores laranja, champagne, e bordô das buganvílias que o vento caprichosamente havia espalhado. Frau Knaack logo retornou trazendo vários panos e muitas garrafadas com líquidos aromáticos. Aos poucos Lüdtke foi recobrando os sentidos e retorcendo de dores. Todos estavam atônicos, apreensivos e silenciosos, confiando piamente nos conhecimentos da Frau Knaack que com destreza e jeito ia colocando os ossos do ombro no lugar, enquanto que Lüdtke gritava de dores e desmaiava. Nos ferimentos profundos derramou simplesmente líquidos aromáticos e nos cortes da perna, derramou o óleo de copaíba e colocou panos embebidos e folhas frescas colhidas na mata. Em quatro semanas, Lüdtke mais magro, de barba por fazer e pálido, já caminhava vagarosamente pelo pátio de sua casa.

Além das doenças tropicais os pioneiros foram acometidos por outros males, como: convulsões, gastroenterite, coqueluche e a difteria que causava grande mortalidade infantil. Por essa razão, os pomeranos logo percebemos que para termos melhores condições de vida, precisamos aprender com os antigos moradores brasileiros, índios e escravos. A experiência deles é de grande valor. Conhecem a mata Atlântica e as preciosidades de plantas que salvam.

Reinke sempre triste e depressivo fazia chá de erva de São João. Os Henke faziam chá da casca da jabuticaba branca (myrciaria jaboticaba, Berg) para as inflamações da amigdalite. A Família Bull usava a entrecasca do pequi para produzir tanino e tintura castanho escuro para tingir os balaios que confeccionavam para colocar ovos e verduras. Em 1872 pomeranos nas matas com fome e sede descobrem o palmito doce (Euterpe edulis) e planta colombi espinhoso (cipó guajuru. Clytotoma sciuripabulum) que contém água, espécies encontradas na Mata Atlântica no Espírito Santo e Rio de Janeiro.

A cada dia uma novidade e os dias iam se sucedendo sem serem rotineiros. A correria no pátio e os gritos em frente a casa de vovó Reinke na Suíça, no povoado de Santa Leopoldina/ES, chamou atenção de todos trabalhando nos morros altos entre os cafezais. Vovó largou tudo em poucos instantes estava ao lado do jovem neto, deitado debruço sob um velho lençol listrado, estirado no terreiro em baixo da frondosa jabuticabeira branca, a qual dos frutos se fazia licor. Tinha fortes queimaduras nas costas. Prontamente o levaram para as dependências da casa, para uma cama de solteiro que mais parecia de casal e o deitaram sobre um colchão de palha de milho, enquanto vovó colocou numa panela de ferro cera de abelha e vinho a ferver. Ao esfriar aquela pasta gordurosa da panela, suavemente passou nas costas do neto. Em poucas semanas já estava trabalhando com os adultos, colhendo café.

A Mandala de Ervas Medicinas da Professora Inês Klug em sua propriedade no CAMINHO POMERANO, em São Lourenço do Sul/RS. Inês de avental e touca branca ensinando como plantar e usar as ervas medicinais para os visitantes.

E Gottlieb sempre com dor de dente. Vivia com os bolsos do seu pequeno calção repleto de folhas dorme-dorme. Mais conhecida como jambú (Spilanthes acmella (L.) Murray). De vez enquanto tirava umas folhas e ia mascando pelo caminho. Dizia que toda sua boca dormia e nem mesmo sentia a água que bebia da cachoeira na volta da escola para casa.

Ah, se me lembro por aqui passou um naturalista. Tinha um aparelho esquisito e entrava na mata fechada sozinho. Caçava borboletas, escaravelho e plantas miúdas diversas e matizadas. Tinha boa instrução e muitas vezes sentava á sombra de árvores frondosas e ficava horas desenhando e escrevendo o que havia visto.

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by José Carlos Heinemann

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